terça-feira, 31 de março de 2009

Memórias antecipadas- um caso de cassação de mandatro I

O jornal Estado de São Paulo publicou na edição do dia 24/03/09 matéria subordinada ao título “Ata secreta revela bastidores das cassações dos anos de chumbo”, na qual revela a discussão havida entre o General Médici e o presidente Costa e Silva a propósito da decisão do presidente de excluir meu nome da lista de cassações. Como o episódio ocorreu entre o final de 1968 e o início de 1969, julguei oportuno - fugit irreparabile tempus - antecipar parte de minhas memórias, em preparo para divulgação futura. O general Médici presidente disse ao presidente Costa e Silva: “assim, vão ficar convencidos que o senhor tem o maior coração do mundo”, quando Costa e Silva determinou a retirada e meu nome de uma suposta lista de cassações de mandato em homenagem ao vice-presidente Pedro Aleixo, cujas ponderações evidenciaram a injustiça do procedimento. O nome do autor da proposição para o ato de degola não é citado, provavelmente teria sido o ministro Gama e Silva. As coisas se passaram dessa maneira: membro a Comissão de Justiça da Câmara, recusei pedido do governador Israel Pinheiro para votar favoravelmente ao projeto de cassação do mandato do deputado Márcio Moreira Alves.

Memórias antecipadas - um caso de cassação de mandato II

Chegando à Câmara, o deputado Geraldo Freire, líder do governo e por quem tinha grande apreço e amizade, renovou o apelo. Ante a minha recusa, decidiu afastar-me da Comissão de Justiça, ato praticado nos limites de sua competência. No plenário, no dia da votação do projeto em questão, votei contra o ato abusivo e politicamente inútil de cassação de Márcio Moreira Alves. Nessa posição encontrava-se quase toda a bancada mineira. O que ocorreu depois foge ao objetivo destes esclarecimentos. Fica para as memórias. Dias depois, o deputado gaúcho Tarso Dutra, do PSD do Rio Grande do Sul, ministro da Educação, encontrou-se comigo e deu-me notícia das palavras altamente honrosas do professor Pedro Aleixo em meu favor, quando meu nome surgiu para o cadafalso, o que levou o presidente Costa e Silva a aceitar suas ponderações para livrar-me da imerecida punição política. Não fui eu o único a participar da lista colocada naquele dia à deliberação do Conselho, em que se incluía quase toda a bancada mineira encimada por Milton Campos. Procurei o vice-presidente Pedro Aleixo em seu gabinete com o propósito de agradecer-lhe a generosidade de seus conceitos. Na ante-sala estava o jornalista Carlos Castelo Branco, o Castelinho, que tomou conhecimento dos motivos de minha presença ali, registrando-a em sua prestigiosa coluna. Ao tocar no assunto, o professor Pedro Aleixo sequer deixou-me continuar dizendo que a reunião era secreta e não havia nada a agradecer-lhe. Sempre o mesmo homem de grande nobreza de atitudes.

Memórias antecipadas - um caso de cassação de mandato III

Eu já estava marcado por alguns militares da chamada “linha dura”, desde quando pronunciei na Assembléia o discurso Protesto de uma Geração contra a cassação de Juscelino. Anos mais tarde, essa mesma indisposição política para comigo se manifestou quando disputei a convenção do PDS para candidato ao governo do Estado, oportunidade em que os governos federal e estadual acionaram todo tipo de pressão para impedir fosse eu o vitorioso. Este é tema para muitas outras informações, guardadas no baú da memória a ser destampado no tempo exato. Sempre que alguém indaga quando pretendo escrever minhas memórias, respondo com a advertência de que a existência de muitas personagens vivas impõe alguns constrangimentos e querelas indesejadas. Conversando com o senador José Sarney que escreve atualmente suas memórias, sobre este tema objetou-me dizendo que não há necessidade de expor personagens em situação delicada, ao que obtemperei afirmando que, dessa forma, memórias ficariam desfiguradas ainda mais pelo desgaste a que são submetidas pelo tempo. Seja como for, brevemente haverei de contar muitas histórias vividas neste longo caminho percorrido em meio século de vida pública.

domingo, 8 de março de 2009

A camisa de Giácomo -= uma crônica I

Ele provinha da região da Catania, na Sicília, onde se desenrolou o drama imortalizado por Mascagni na ópera Cavalleria Rusticana. Giacomo era um tipo achaparrado de trabalhador rural e aceitou de bom grado o convite de um primo para virem ao Brasil, mais especificamente para Minas Gerais. Trabalhariam juntos numa fazenda de café com a experiência na colheita da azeitona nos extensos oliveirais daquela região italiana. Veio para uma cidade cafeicultora de Minas. Lá chegando, encontrou logo trabalho na generosa safra de café daquele ano. Havia grande demanda por mão de obra e a dos italianos era bastante apreciada. De temperamento manso, tranqüilo e acomodado, Giacomo conheceu Manoela, italiana já aclimatada no Brasil. Ela não era mulher do tipo Lolobrigida ou Sophia Loren. Talvez estivesse mais para Silvana Mangano. Seus traços, se não eram muito bonitos, davam-lhe no entanto um especial ar de graça e coqueteria. Casaram-se e levavam a vida adequada ao estilo de pessoas rústicas. Com o dinheiro ganho na lavoura foram progredindo

A camnisa de Giácomo - uma crônica II

Giacomo ia para o eito e Manoela cuidava da casa na cidade, evidenciando sinais de melhoria no padrão de vida, permitindo-lhe vestir-se melhor e pôr em evidência as atraentes curvas do corpo. Ia diariamente à mesma padaria para as compras. Sorriso franco, sotaque italiano aumentando-lhe ainda mais o charme e a simpatia, Manoela despertou a atenção de Pierino Rossi, fazendeiro oriundo de família italiana da terceira geração, um tipo bem apessoado vestido com trajes típicos dos lavouristas daquela cidade. Pierino passou a fazer compras na mesma loja desde a primeira vez que colocou seus olhos cúpidos sobre a italiana. Limitava-se inicialmente a ligeiro cumprimento, tirando da cabeça o chapéu de boiadeiro para inclinar-se respeitosamente em sua homenagem. Do bom-dia passou ao papo descuidado. Da conversa saltou para o interesse nos detalhes da vida de Manoela. A italiana era de temperamento e sangue fortes e já havia experimentado os prazeres de derriços mais ousados, favorecendo sobremaneira a corte que Pierino estava a fazer-lhe todos os dias

A camisa de Giácomo - uma crônica III

A ida de Giacomo para o trabalho rural facilitava as coisas. Ademais, ele era de tal forma desligado que o mundo poderia desabar sem que movesse um só músculo do rosto. Naquele tempo não se falava assim, mas dele hoje se diria que "não estava nem aí". Pierino e Manoela foram se acostumando aos encontros no tálamo italiano. O fazendeiro comparecia com o vigor de sua libido e com o recheio da conta da casa para as despesas. Certo dia Pierino chegou de inopino. Giacomo ainda estava por lá. O jeito foi aboletar-se debaixo da cama, sem que Manoela e Pierino soubessem. Por ali permaneceu enquanto o casal rendia tributos ao altar de Eros e Afrodite. Pierino disse a Manoela que deseja comprar uma camisa para Giacomo, mas não sabia o número de seu pescoço. Afinal, ele era tão bom e compreensivo que bem merecia o regalo. Novamente pergunta pelo número da camisa a ser comprada. Manoela não sabia. Giacomo sob o leito, a tudo ouvindo serena e passivamente, socorre-a com seu forte sotaque italiano: "cuarant'otto".

quinta-feira, 5 de março de 2009

Um poema de Herman Hesse em "Transformações"

A MAGIA DAS CORES

De quando em quando, o hálito de Deus
Céu em cima, céu embaixo
A luz cantando mil canções
Deus torna-se mundo em tantas cores

O branco pelo preto, o quente pelo frio
Atraem-se constantemente,
O arco-iris sem cessar se forma
Do caos das espirais

Assim passa pela nossa alma,
Múltipla em êxtase e suplício,
A luz de Deus, e cria e age:
E nós o veneramos como o Sol.